Chrome 150 desativa de vez o Manifest V2 e o uBlock Origin clássico em 30 de junho
Em 30 de junho, o Chrome 150 apaga o último resquício do Manifest V2 e o uBlock Origin clássico para de funcionar de vez. Veja o que muda, por que o MV3 enfraquece o bloqueio e quais são suas opções reais.
Se você abre o Chrome todos os dias com o uBlock Origin clássico segurando a barragem de anúncios e rastreadores, a contagem regressiva já começou: em 30 de junho, o Chrome 150 remove o último resquício do Manifest V2 do código do navegador, e a extensão simplesmente para de funcionar — sem botão, sem flag, sem jeitinho.
Esse não é um aviso surpresa. É o passo final de uma transição que o Google vem executando há quase dois anos, em fatias, justamente para evitar uma manchete única e estridente. Mas o efeito acumulado chega agora, e ele atinge em cheio quem leva privacidade a sério.
O que muda exatamente em 30 de junho
O Manifest V2 é a especificação antiga sobre a qual extensões de Chrome eram construídas. O Manifest V3 (MV3) é o substituto, obrigatório há algum tempo para novas extensões. A diferença que importa para bloqueadores está numa única API.
A linha do tempo, para situar onde estamos:
- Fim de 2024 — o uBlock Origin completo é retirado da Chrome Web Store por incompatibilidade com o MV3.
- 31 de março de 2025 — o Google desativa extensões MV2 por padrão em todos os canais; restava um toggle nas configurações para reativar temporariamente.
- Julho de 2025 (Chrome 138) — o MV2 é desativado de forma permanente e o toggle some.
- 30 de junho de 2026 (Chrome 150) — o último flag de override do MV2 é apagado do código-fonte do Chromium. Acabaram os contornos.
Na prática, se você ainda mantinha o uBlock Origin vivo por algum truque — versão antiga do Chrome, política de empresa, flag escondida —, essa janela fecha. Depois do 150, a extensão fica permanentemente desativada no canal estável.
Por que o MV3 enfraquece o bloqueio
A mudança técnica de fundo é a troca da API webRequest (no modo bloqueante) pela declarativeNetRequest.
Com a webRequest bloqueante, a extensão via cada requisição de rede em tempo real e decidia, na hora, se deixava passar, bloqueava ou modificava. Era código rodando, com lógica própria, capaz de reagir a um truque de anúncio que apareceu há cinco minutos.
A declarativeNetRequest inverte o modelo. A extensão entrega ao navegador uma lista de regras estáticas declaradas com antecedência, e o próprio Chrome aplica essas regras. A extensão não vê mais o tráfego nem decide em tempo real. Isso traz três limitações concretas:
- Regras estáticas e com teto. Existe um limite para quantas regras de bloqueio podem estar ativas. Listas de filtros grandes (e modernas) batem nesse teto.
- Sem adaptação dinâmica. A extensão não consegue reagir a um domínio de rastreador novo ou a uma técnica de anúncio nova sem publicar uma atualização e passar pela revisão da Chrome Web Store.
- Filtragem cosmética enfraquecida. Boa parte da eficácia do uBlock Origin contra anúncios modernos vinha de esconder e remover elementos da página dinamicamente — exatamente o tipo de operação que o modelo declarativo restringe.
O Google argumenta que o MV3 melhora desempenho, privacidade e segurança ao tirar o acesso amplo das extensões ao tráfego. O argumento não é vazio. Mas o efeito colateral é que a ferramenta mais usada para bloquear anúncios e rastreadores perde dentes — e a empresa que define a API também é a maior vendedora de anúncios do mundo. Esse conflito de interesses é o que mantém a discussão acesa.
Suas opções a partir de agora
Não há uma resposta única. Há trocas, e qual escolher depende de quanto bloqueio você precisa e de quanto está disposto a mudar de hábito.
uBlock Origin Lite (MV3, fica no Chrome)
O uBO Lite é a versão MV3 oficial, feita pelo mesmo autor. Ele continua funcionando no Chrome depois do 150. O preço: ele suporta apenas uma fração das listas de filtros do uBO clássico e não entrega a filtragem cosmética e dinâmica completa. Para navegação comum, segura a maioria dos anúncios. Para os casos difíceis — YouTube, sites com entrega de anúncio sofisticada —, você vai notar a diferença. Estimativas independentes apontam bloqueadores MV3 deixando passar algo entre 10% e 30% a mais de anúncios e rastreadores do que o mesmo bloqueador rodando com API completa.
Firefox (mantém o uBlock Origin completo)
O Firefox adotou o MV3, mas com uma diferença decisiva: continua suportando a webRequest bloqueante e a declarativeNetRequest. O resultado é que o uBlock Origin completo roda no Firefox em plena capacidade. Para quem o bloqueio é prioridade inegociável, migrar de navegador é hoje a opção mais robusta.
Brave (bloqueio nativo, sem extensão)
O Brave é baseado em Chromium, mas embutiu o próprio motor de bloqueio — o Shields — direto no navegador, fora do framework de extensões. Ou seja, não depende do MV2 nem do MV3. Bloqueia anúncios e rastreadores por padrão, sem você instalar nada.
Bloqueio fora do navegador (DNS / Pi-hole)
Para quem quer cobertura em todos os dispositivos da casa, um bloqueador no nível de DNS — Pi-hole, NextDNS, AdGuard Home — filtra requisições antes mesmo de chegarem ao navegador. Não substitui a filtragem cosmética dentro da página, mas independe completamente do navegador e protege também celulares e smart TVs.
O que fazer antes de 30 de junho
Um checklist curto e direto:
- Veja se você ainda depende do uBO clássico. Em
chrome://extensions, confira se o uBlock Origin aparece como desativado ou marcado como MV2. Se sim, ele não volta. - Decida sua estratégia. Bloqueio máximo sem trocar de máquina → Firefox. Ficar no Chrome com bloqueio "bom o bastante" → uBO Lite. Cobertura para a casa toda → DNS.
- Exporte suas regras. Se você tinha filtros customizados ou listas pessoais no uBO clássico, exporte-os antes de perder o acesso — abra o painel do uBO e salve seus filtros dinâmicos.
- Se gerencia uma frota corporativa, saiba que as políticas de empresa que prolongavam o MV2 também expiram. Planeje a migração das extensões internas para MV3 antes da atualização.
Vale entender que filtros de bloqueio são, no fundo, padrões: domínios, caminhos de URL e expressões que casam com requisições indesejadas. Quem escreve ou audita listas de filtros estáticas — seja para uma regra do uBO Lite, seja para uma config de DNS — passa boa parte do tempo testando padrões e expressões regulares para garantir que casam exatamente com o que deveriam, sem efeito colateral. Para isso, um Testador de Regex ajuda a validar uma expressão contra exemplos reais antes de colocá-la na lista — útil tanto para conferir um filtro novo quanto para entender por que uma regra está bloqueando (ou deixando passar) o que não devia.
A conversa em torno do MV3 é, no fim, sobre quem controla o que entra e sai do seu navegador — o mesmo tipo de tensão entre conveniência e controle que aparece em outras frentes da tecnologia, como discutimos no caso do Claude Fable 5.
O recado
O fim do Manifest V2 não é o fim do bloqueio de anúncios — é o fim de uma era em que o bloqueador mais poderoso rodava no navegador mais popular sem atrito. Depois de 30 de junho, manter privacidade no nível a que você se acostumou exige uma escolha consciente: trocar de navegador, aceitar uma versão mais fraca ou levar o bloqueio para fora do navegador. Nenhuma dessas opções é automática, e é por isso que vale decidir agora, antes que a atualização decida por você.
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